Aprendendo
a Observar Aves
Olá,
eu sou Reynier Omena Júnior, natural de Manaus, Estado do Amazonas
e residindo atualmente na capital. Sou Biólogo e trabalho com aves
silvestres há mais de 18 anos e possuo uma boa experiência teórica
e prática em ornitologia e em ecoturismo. Ornitologia é a parte
da ciência biológica que estuda as aves e, ornitólogo,
é a pessoa versada ou que estuda ornitologia. Esta prática é
tão antiga quanto a terra e remonta a era primitiva quando os homens
das cavernas riscavam nas rochas e nos paredões, traços rupestres
de animais e aves que eles viam, observavam e caçavam. Na própria
Bíblia Sagrada encontramos relatos de avistagens de aves por Abrahão,
Moisés, Jó, Salomão, Davi, Amós e até de
Cristo.
Nos dias atuais, observar aves é a atividade que mais cresce na América:
63 milhões de pessoas observam aves. Estes adeptos viajam cerca de
3.000 milhas por ano, a vários países com o fim de observar
e conhecer a fauna de aves destes lugares. Seus adeptos formam uma grande
rede de voluntários que presta inestimável serviço à
ciência, nestes países, participando ativamente de iniciativas
e de programas conservacionistas. Observar aves é diversão em
meio a natureza, porque estimula o interesse pela procura de aves. Isto garante
satisfação e relaxamento, sem ferir e sem capturá-las,
que podem fugir incólumes. Caminhando, subindo ou descendo morros observando,
se adquire resistência física, sem esforço, porque a atenção
está nas aves. A atividade provê integração da
família, pois, freqüentemente, pais, filhos e parentes próximos
mantêm-se unidos por gerações, através deste hábito.
Os mais velhos podem incentivar e estimular aos mais jovens a se interessarem
pela vida silvestre e pela conservação da natureza e prover-lhes
oportunidade de fazerem algo por elas. A seguir, vou dar-lhes algumas dicas
importantes que o ajudarão na observação de aves.
A origem das aves
A origem das aves. O espécime Archaeopteryx lithographica, Archaeopterix (que significa, ave primitiva), (litho = pedra, graphica = escrita) foi descoberto em 1861, estudado e identificado pelo anatomista inglês Richard Owen. Os cincos fósseis encontrados na Alemanha, em 1861, estavam numa área anteriormente ocupada pelo mar. Logo que morreram eles foram cobertos por um lodo fino que preservou não apenas os contornos dos ossos, mas também os das penas. Durante milhões de anos esse material se calcificou na rocha, e ao ser extraída a pedra revelou seus preciosos fósseis: penas e pernas da ave, dentes e cauda de réptil, as características de uma espécie em transição. Archaeopteryx é o mais antigo membro dotado de penas, que chegou a conviver com os pterosauros há 150 milhões de anos atrás (BURNIE, 1990), é a ave mais antiga que se assemelha mais a um dinossauro do que às aves atuais e tinha cerca de 70 cm de comprimento (LOPES, 1999), que provavelmente corria em grande velocidade, mas não conseguia decolar (CURRIE 1998).
Archaeopteryx lithographica trata-se de uma confusa mistura de aves modernas e de répteis primitivos conhecidos como Arcosauros. O crânio era parecido com o das aves, mas as mandíbulas possuíam dentes, uma característica dos répteis, inexistente em qualquer ave moderna. Apresentava também uma longa cauda óssea, semelhante à de alguns répteis, diferindo das aves, que possuem as vértebras caudais fundidas numa curta projeção, sendo a cauda formada exclusivamente de penas. Na verdade o esqueleto era mais parecido com o dos Arcosauros do que com o das aves modernas, tendo asas como ave e o corpo coberto de penas. Poderia ser discutida a sua classificação como réptil ou como ave, mas, tomando a presença de penas como a característica principal de diagnóstico, os paleontologistas o classificaram como ave.
O Archaeopteryx deve ter evoluído de pequenos dinossauros bípedes que andavam nas patas de trás em vez de apoiar-se nas quatro patas (BURNIE 1990), eram predadores que se deslocavam rapidamente sobre o solo (LOPES 1999). Dinossauro de hábito terrícola que graças ao aumento da superfície de suas extremidades anteriores, se tornou capaz de voar (WILLISTON 1897; NOPCSA 1907). Marsh (1880) e Bock (1965), afirmaram que ele era capaz de trepar em árvores. É provável que ele, devido as três possantes garras, tivesse tido técnica semelhante de se apoiar com as asas na galhada da mata, quando trepava para evitar que a cabeça e o corpo pendessem para frente (SICK 1997).
Importância das Aves
As aves como todos os animais do Reino Animal desempenham funções ecológicas bem definidas, por isso elas são importantes e úteis, pois realizam trabalho de dispersão, de predação de sementes, o controle biológico de populações de outros animais. Por exemplo, ao se alimentarem de frutos, predam as sementes e ao deixarem estas caírem no solo ao se deslocarem para diferentes pontos da floresta, dispersam essas sementes, que ao caírem em solo propício, oferecem as condições necessárias ao brotamento e desenvolvimento da planta, contribuindo assim para a regeneração da floresta. Elas polinizam flores ao transportar o pólen (beija-flores). Aves necrófagas como urubus e certos gaviões, realizam útil trabalho na natureza de remover restos de animais em estado de putrefação, que de outra forma, acumulariam moscas e outros animais, contribuindo para com a proliferação de vetores e de doenças. A aves carnívoras, como gaviões, grandes corujas que se alimentam de serpentes e de pequenos vertebrados, as espécies de aves que se alimentam de insetos, todos, ao se alimentar desses animais, fazem a regulação natural dessas populações.
As aves agem como indicadores da saúde ambiental e indicam as condições de saúde de determinados ambientes, como a ocorrência de desmatamentos, queimadas, poluição de rios, de lagos e de igarapés, em geral, as afetam. O desaparecimento ou o aumento de algumas populações de aves são indicadores de alteração na qualidade ambiental. As aves também desempenham importante na qualidade de vida das pessoas, pois elas enchem-nos com sua beleza, pelo belo colorido da plumagem, por nos encantar com seus maravilhosos cantos, seus modos de vida, que enchem os ares de encanto e poesia. Na cozinha brasileira são apreciadas como alimento. Mas é em países como Estados Unidos, Canadá e Inglaterra que elas são muito valorizadas e contribuem para a economia local, através do Turismo de Observação de Aves, segmento muito popular que está se irradiando para vários países do globo terrestre, conhecido internacionalmente como Birding ou Birdwatching.
O que você precisa para começar a observar aves?
Você
quer aprender a observar pássaros? O material básico que você
precisa é de um binóculo com aumento entre 8 a 10 vezes, um
Guia de Campo e uma caderneta de campo para fazer anotação e
a descrição de espécies não identificadas, acuidade
visual e auditiva e de uma boa dose de paciência e de boa vontade. O
Guia de Campo é um livro que contém informações
técnicas, descrição e ilustrações coloridas
das aves que ocorrem em determinada região ou país. A identificação
de aves é um exercício contínuo do ato de observar espécimes
em vida livre e identificá-la no guia de campo. Com a prática
você gradativamente aumentará seu acervo de conhecimento ornitológico.
Aves da Amazônia Brasileira/Brazilian Amazon
Birds. 2008. Tomas Sigrist: Avis Brasilis - Valinos.
Todas as aves do Brasil: guia de identificação. 2004. Deodato Souza. Editora
Dall. Feira de Santana, Bahia. 356p.
Guia de Campo: Aves do Brasil Oriental/Field
Guide: Birds of Eastern Brazil. 2007. Tomas Sigrist. Avis Brasilis - Valinos.
Aves Brasileiras: uma visão artística.2006. Tomas Sigrist: Avis
Brasilis - Valinos.
Ornitologia Brasileira: uma introdução. Helmut Sick, 1997. Editora
Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 862p.
Como identificar uma ave?
Como identificar
um pássaro? A principal parte que você precisa ver em geral é
a região da cabeça e arredores. Procure linhas, faixas, formato
e cor do bico, cor dos olhos; coloração do pescoço, da
garganta, fronte e coroa. Confira para ver se ela possui um anel em volta
do olho, desenhos ou manchas nas asas. Observe o tamanho e as cores da plumagem,
pois elas podem pregar peças em você e podem parecer diferentes
quando ela estiver ao topo de uma árvore ao meio-dia ou ao pôr
do sol.
Para identificar uma ave, confira a cor principal de cada parte do seu corpo
(cabeça, dorso, asas, cauda, pernas). Compare a ave observada com as
ilustrações existentes nas pranchas de seu Guia de Campo. Faça
comparações: "De que tamanho ela é?". Ela é
tão pequena quanto um canário, ou grande quanto um pombo, um
pato ou um peru? Ela é gorda ou magra, comprida ou curta? Olhe para
cada parte dela. Suas asas são curtas ou longas, largas ou finas, curvas
ou retas? E a sua cauda? Qual é o seu formato? É aforquilhada,
reta ou curva? E as pernas? Às vezes apenas a cor das pernas pode ajudá-lo
a diferenciar uma espécie da outra. Com a prática, poderá
estreitar sua marca de identificação (ID) até chegar
à família correta. Espécies não identificadas
devem ser descritas na caderneta.
Como identificar aves pelo som? O som que uma ave produz pode lhe dizer “comece
me procurando por aqui”, pois o canto indica onde ela está. Tente
fazer a descrição silábica dele, ou associá-lo
a uma palavra ou frase. Assim, ficará mais fácil assimilá-lo.
Observadores experientes podem ver mais aves com os olhos fechados que muitas
pessoas com os olhos abertos! Eles conhecem as vocalizações
que uma ave emite. É preciso aprender a escutar. Algumas aves vivem
em locais de difícil acesso ou observação, nos quais
você nunca as poderá ver. Mas bons observadores podem identificá-las
ouvindo suas vocalizações. Vendo e ouvindo a ave que canta,
no campo, você aprende a associar a ave ao som que ela produz.
Como identificar o habitat dela? Onde você e a ave estão? Dê
uma olhada ao redor de você. Você e a ave estão numa floresta,
numa capoeira, numa clareira, no interior da mata, numa campinarana, às
margens de um lago ou no meio do rio? Cada ave gosta de um certo ambiente
– habitat: beira da mata, lago, igapó, várzea, mata primária.
No solo, em arbustos, na copa; nadando ou mergulhando. Identifique o habitat
da ave! Podemos encontrar aves em quase todos os lugares! Você ficará
assustado ao saber que aves vivem nos fundos de seu próprio quintal
ou sítio. Para tanto, mantenha seus olhos abertos e ouvidos atentos.
Se você puder responder muita destas perguntas, terá boas chances
de encontrar a ave que procura em seu Guia de Campo.
Observe o comportamento da ave
Depois que você fizer tudo isso, então observe o comportamento.
Ela está sozinha, em par ou em grupo? Ela forrageia no solo, em arbustos
no sub-bosque, no estrato intermediário ou na copa? Do que ela está
se alimentando? Como ela se mantém no poleiro, debruçada ou
ereta, quieta ou irrequieta? Seu vôo é horizontal, direto ou
para cima e para baixo como uma montanha-russa? Ele é batido, planado
ou a combinação dos dois? Com a prática, você poderá
reconhecer muitas espécies de aves pela silhueta delas.
Formas de se observar aves
Você
pode fazer observação de aves de duas maneiras:
1) Observação parada, de escuta, em que o observador fica parado
em determinado local, ouvindo e observando a movimentação das
aves na copa e nos estratos inferiores da floresta, às margens de um
lago ou à beira da mata. Em alguns casos, o uso de tendas, de mantas
camufladas ou de esconderijos naturais pode ser importante para uma proveitosa
observação!
2) Observação de percurso, em que o observador faz suas observações
percorrendo cuidadosamente uma trilha, uma picada, um campo a pé ou
num automóvel, ou navegando em canoa.
Locais para se observar aves em Manaus
Em Manaus,
existem locais próximos à zona urbana, nos quais você
pode observar centenas de espécies sem fazer muito esforço:
no Parque Estadual Samauma, no Jardim botânico Adolfo Ducke, no Bosque
da Ciência, no Parque do Mindu, nas imediações do hotel
tropical, atrás do conjunto Petro nas proximidades da colônia
japonesa; no Tarumã, no Campus da Universidade do Amazonas e muitos
outros.
Quanto mais você se distanciar da área urbana em direção
à regiões ermas, mais espécies silvestres, com certeza
poderá ver. Mais dicas sobre estes e outros assuntos, você poderá
encontrar no livro “Aves da Amazônia – guia do observador”,
constante em nossa Loja Virtual on-line. Agora que você já conhece
estas dicas, pratique-as!
Copyright
© R. Omena Junior
Referencias
ANDRADE, M. A. 1993. A vida das aves: Introdução à Biologia
e Conservação. Belo Horizonte: Littera Maciel Ltda. 160p.
BOCK,
W. J. 1965. The role of adaptative mechanisms in the origin of higher levels
of organization. Syst. Zool. 14: 272 – 287, Lawrence, Kansas.
BURNIE, D. 1990.
Aventura Visual: aves. São Paulo: Globo, 64p.
CURRIE, P.1998. Dinos voadores. Veja, No.115.Ed. Abril: São Paulo.
LOPES, S. 1999. Bio. Volume Único. São Paulo: Saraiva, 604p.
MARSH, O. C. 1880. Odontornithes: a monograph on the extinct toothed birds of North America. Prof. Paper Egineer. Dep. U.S. Army. 18: 1-201; Washington, DC.
NOPCSA, F. 1907. Ideas on the origino of flight. Proc. Zool. Soc. London. 1907: 223 - 236, London.
SICK, Helmut. 1997. Ornitologia Brasileira: uma introdução, Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 862p.
WILLISTON, S. W. 1879. Are birds derived from dinosaurs? Kansas City Rev. Sci. 3:457 – 460; Kansas City.
© R. Omena Junior





