colisão de aves contra superfícies de vidro

Por que há   colisão de aves contra superfícies de vidro?

O uso de janelas e superfícies de vidro tem causado a morte de muitas espécies de aves. Edifícios envidraçados em razão de sua beleza e funcionalidade, tornaram-se uma grande tendência da arquitetura contemporânea. Sua multiplicação aconteceu especialmente a partir dos anos 1990, num esforço de criar prédios monumentais e que, ainda assim, pudessem transmitir leveza. Por dentro, a luz natural ajuda a reduzir os gastos com energia e torna o ambiente mais agradável. No entanto, por fora, seus efeitos colaterais causam enormes prejuízos a avifauna urbana e silvestre. São três colisões a cada dois dias e uma morte a cada três ou quatro dias. Como a vida útil dos edifícios é grande, o número de mortes pode passar da casa dos bilhões em longo prazo (US FISH AND WILDLIFE SERVICE 2016). Hoje, o vidro é muito utilizado na arquitetura contemporânea, entretanto, a humanidade caminha para o uso de padrões de consumo consciente e de baixo impacto ambiental, demandando cada vez mais compromisso e atitudes éticas.

O que atrai as aves para a colisão?

O uso de superfícies transparentes ou refletivas nas edificações tanto urbanas quanto rurais, construídas próximas de locais com a presença de árvores, plantas, flores, jardins, áreas verdes ou florestas ou ainda estruturas que refletem o céu, as nuvens, representam perigo para avifauna urbana e rural. As aves são iludidas e atraidas pela reflectancia destas estruturas diante delas, tanto na área urbana quanto rural e colidem violentamente contra elas, e quedam-se com fraturas severas no chão, diariamente. É necessário criar barreiras que sirvam de alerta e evitem o choque.

O problema: as superfícies transparentes e refletivas

Os dois problemas são:  (1) as superfícies transprantes e as (2) refletivas utilizadas na arquitetura e construção civil, em janelas, fachadas, muros e painíes das edificações residenciais, comerciais, urbanas e na zona rural. A colisão de aves com superfícies transparentes e refletivas é um dos fatores que ameaça a vida das aves em todo o mundo, uma vez que janelas, vidraças, painéis de vidro, muros e fachadas espelhadas são praticamente invisíveis para elas, pois não conseguem distinguir o que é real do que é irreal. Em várias partes do Brasil há reportes não oficiais de colisões de aves contra janelas de vidro. No Brasil, há três estudos  publicados sobre o tema: uma revisão de 53 artigos, a maioria publicados na América do Norte (BASILIO et al 2020), outro que avaliou a eficácia do uso de adesivos com imagem de falcões e gaviões que demonstrou ser ineficiente para evitar as colisões (BRISQUE et al 2017) e o terceiro que avaliou a eficiência de uso de imagens de falcões e a aplicação de figuras circulares nas vidraças, esta última apresentando resultados muito satisfatórios para evitar a colisão (RIBEIRO e PRATELLI 2019).

Colisão de aves nos Estados Unidos

Nos EUA, a mortalidade de aves resultante de colisões de aves contra janelas de vidro é estimada entre 365 a 988 milhões de aves, e no Canadá, entre 16 a 42 milhões, anualmente (LOSS et al. 2014).  Embora a maioria das pessoas considere estas colisões um fenômeno urbano envolvendo altos arranha-céus envidraçados, a realidade é que 56% da mortalidade por colisão ocorre em edifícios baixos (de um a três andares), 44% em residências urbanas e rurais, e <1% em arranha-céus  (LOSS et al. 2014).  Na América do Norte, os fatores ligados a taxas de colisão mais altas estão nas áreas de superfícies de vidro contínuas, a presença de vegetação próxima a alimentadores e durante a migração de aves. Vários fatores foram específicos do local e impedem a extrapolação dos dados (BASILIO et al 2020).

A chave para minimizar a colisão das aves contra as superfícies de vidro

A chave para evitar a colisão das aves contra superfícies de vidro é aumentar o ruído visual na superfície do vidro, criar um padrão visível que quebre as áreas transparentes ou reflexivas do vidro, o suficiente para que as aves percebam que não podem passar por elas. O Serviço Americano de Caça, Pesca e Vida Silvestre recomenda a aplicação de adesivos com imagens nas janelas e painéis de vidros transparentes e espelhados tendo tido bons resultados (US FISH AND WILDLIFE SERVICE 2016). No Brasil, estudos desenvolvidos pela Universidade Federal de São Carlos comparou a eficiência do uso de adesivos com falcões e a aplicação de adesivos de forma circular nas faces envidraçadas. Os resultados indicaram que os decalques circulares são mais eficientes do que figuras de falcões para evitar colisões (RIBEIRO e PRATELLI 2019; PORTO 2020). Opções de adesivos ou películas “amigáveis” às aves são muitos usadas: Vancouver (Canadá)American Birding ConservancyGeorgia Audubon e diferentes modelos podem ser encontrados à venda na Amazon.com. Existem modelos mais modernos e discretos no site Acopian Bird Savers, para superfícies transparentes, com base nas medidas recomendadas pelo Serviço Americano de Caça, Pesca e Vida Silvestre. Modelos de películas modernas e discretas vem sendo produzidas e vendidas no Brasil, feitas de vinil, com design moderno e criativo, material resistente são aplicadas diretamente na superfície da janela – são as da Película Chic.

O tratamento e a distancia entre as figuras ou barreiras para evitar as colisões

Quanto a distância entre as figuras impressas nos adesivos ou películas que servirão de barreira contra as colisões, o Serviço Americano recomendou que tenham 5.08 cm na vertical, por 10.16 na horizontal de forma a dissuadir e alertar as aves. Este distanciamento tem sido eficaz na prevenção de colisões da maioria das aves, mas como os beija-flores são muito menores do que estas, fazendo uso do princípio da prevenção e da precaução o estudo recomendou utilizar um espaçamento menor (US FISH AND WILDLIFE SERVICE 2016). Estudos no Brasil usando figuras circulares de 1.8 cm com distanciamento vertical e horizontal de 10 cm, tiveram resultados muito eficientes para evitar a colisão das aves contra superfícies transparentes (RIBEIRO e PRATELLI 2019), entretanto, não há a necessidade de estudos que avaliem a eficácia destas figuras em superfícies refletivas.

Listras verticais de 2mm ou 13mm de largura, por 10 cm de distanciamento são mais eficazes do que listras horizontais idênticas (ROSSLER 2015). A aplicação de películas com figuras geométricas diversas e de diversos tamanhos a partir de 0,5 cm, mas mantendo distancias que variaram de 1 a 9 cm, tem evitado a colisão das aves contras vidraças (Eloiza Besolchet, comentário pessoal).

Uso de obstruções visuais como barreiras contra as colisões

Além do uso das películas, é recomendado o uso de obstruções visuais que atuem como barreiras contra as colisões, cortinas, persianas, pinturas de faixas e/ou barras que impeçam a visualização do reflexo ou da paisagem nas lâminas de vidro; o uso de vidro ou de adesivos transparentes que tenham capacidade de refletir luz ultravioleta, a instalação de telas externas ou redes (US FISH AND WILDLIFE SERVICE 2016). Um tipo especial de estrutura completa (janela com o vidro conjugado) foi desenvolvido na Alemanha, o “ornilux”, especialmente para alertar a ave e faze-la desviar da parede envidraçada. Ornilux possui um tratamento especial que faz com que as aves enxerguem o vidro todo riscado sem espaço para transpô-lo, mas para a visão humana a superfície dele é transparente (EDWARDS 2010). A tecnologia destes vidros especiais ainda não chegou ao Brasil.

Embora os estudos sobre o tema hoje disponíveis no Brasil não sejam muitos, os que foram publicados são pioneiros no Brasil ao avaliar a eficácia de métodos preventivos (BASILIO et al. 2020), complementam os dados levantados nos EUA, e permitem a tomada de decisão embasada em dados científicos, para apoiar medidas preventivas contra a mortandade de aves, a partir da propositura de um dispositivo legal que uniformize os procedimentos e regulamente as medidas necessárias, para reduzir e eliminar as mortes de aves por colisão com as estruturas envidraçadas transparentes e refletivas. Consulte neste mesmo blog outra materia sobre o tema.

No Brasil, um grupo de pesquisadores voluntários de várias áreas do conhecimento liderados pelo biólogo Reynier Omena Junior, buscam alternativas de soluções para minimizar o problema destas colisões, possivelmente, a partir da criação de uma proposta de ante projeto de lei. Caso você tenha interesse em participar, por favor entre em contato conosco ou acesse o link Colisão aves e Janelas no Google Groups.

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BIBLIOGRAFIA CONSULTADA E REFERENCIAS

BASILIO, Lay G; MORENO, Daniele J. e PIRATELLI, Augusto J. 2020. Main causes of bird-window collisions: a review. Anais da Academia Brasileira de Ciências. Annals of the Brazilian Academy of Sciences. Anais Academia Brasileira de Ciencia, Vol. 92 (1): e20180745 DOI 10.1590/0001-3765202020180745. ISSN 1678-2690. Disponível em: <https://www.scielo.br/pdf/aabc/v92n1/0001-3765-aabc-92-01-e20180745.pdf> Acesso em: 04 Set 2020.

BRISQUE, Thaís; CAMPOS-SILVA, Lucas Andrei; PIRATELLI, Augusto João.  2017. Relationship between bird-of-prey decals and bird-window collisions on a Brazilian university campus. ZOOLOGIA 34: e13729, ISSN 1984-4689. Disponível em: <https://pdfs.semanticscholar.org/f3ee/cb8740545336d941a0d64d2b3f12e80fd800.pdf?_ga=2.186919147.2105253302.1600183630-230941340.1600183630>

Acesso em: 2 Set 2020.

EDWARDS, Lyn. 2010. Bird-friendly glass looks like spider web to birds. Phys. Disponível em: https://phys.org/news/2010-08-bird-friendly-glass-spider-web-birds.html Acesso em: 13 Set 2020.

ERICKSON, Wallace P; JOHNSON, Gregory D. e YOUNG JUNIOR, David P. 2005. A Summary and Comparison of Bird Mortality from Anthropogenic Causes with an Emphasis on Collisions. USDA Forest Service Gen. Tech. Rep. PSW-GTR-191. Disponível em: <https://www.fs.fed.us/psw/publications/documents/psw_gtr191/psw_gtr191_1029-1042_erickson.pdf> . Acesso em: 15 Set 2020.

LOSS, S.R; T. Will, S.S. LOSS, e P.P. MARRA. 2014. Bird-building collisions in the United States: estimates of annual mortality and species vulnerability. Condor 116: 8-23. Disponível em: <http://www.audubon.org/sites/default/files/documents/loss_et_al_bird-building_collisons_condor_2014.pdf> Acesso em: 02 Set 2020.

PORTO, Ananda. 2020. Pesquisa aponta que adesivos circulares podem ser mais eficientes para evitar a colisão de aves em janelas. G1. Terra da Gente: Campinas e região. Disponível em: <https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2020/07/08/pesquisa-aponta-que-adesivos-circulares-podem-ser-mais-eficientes-para-evitar-a-colisao-de-aves-em-janelas.ghtml>. Acesso em: 10 Set 2020.

RIBEIRO, Bianca Costa e PIRATELLI, João Augusto. 2019. Circular-shaped decals prevent bird-window collisions. Ornithology Research. Disponível em:. https://doi.org/10.1007/s43388-020-00007-0, Acesso em: 15 Set 2020.

RÖSSLER, M; Nemeth E e Bruckner, A. 2015. Glass panemarkings to prevent bird-window collisions: less can be more. Biologia 70:535–541. Disponível em: https://doi.org/10.1515/biolog-2015-0057 Acesso em: 7 Set 2020.

US FISH AND WILDLIFE SERVICE Division of Migratory Bird Management Falls Church. 2016. Reducing bird collisions with buildings and building glass best practices, Virginia, January.  Disponível em: <https://www.fws.gov/southeast/pdf/guidelines/reducing-bird-collisions-with-buildings-and-building-glass-best-practices.pdf> Acesso em: 08 Set 2020.

SCHNEIDER, Maurício. 2018. Prédios envidraçados como fator de mortalidade de aves. Meio Ambiente e Direito Ambiental, Organização Territorial, Desenvolvimento Urbano e Regional. Estudo Técnico. Julho, 22 pags. Disponível em: <file:///C://Users/User/Downloads/predios_envidracados_schneider.pdf> . Acesso em 18 Set 2020.


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